
Lembra do barulho de se conectar na internet? Quando você deixou de ouvir esse barulho, quando a conexão se tornou tão indispensável quanto a energia elétrica (que você só nota que existe quando falta), foi o dia em que o seu tempo livre acabou.
Antes desse momento, existia “o momento de se conectar”. Com ele foi embora a separação. Passamos a misturar os canais: redes sociais viraram lazer, scroll infinito virou ócio, notificações intermináveis viraram prioridades mais urgentes do que os lembretes que você anota em papel. E o multitasking virou sinônimo de alta produtividade. Não é.
Rushkoff, em “Throwing Rocks at the Google Bus” e depois em “Team Human”, compara o modelo de crescimento perpétuo com algo que também não para de crescer: um tumor. A diferença é que o tumor mata o hospedeiro. Uma árvore para de crescer quando chega ao seu limite. Uma pessoa, também. Um pão fermentando tem uma tarefa e um tempo, e não é bom acelerar nem antecipar.
Já pensou num pão multitask?
Aquele que fermenta enquanto é assado? Não faz sentido. Por que a gente cisma em achar que, com o cérebro, seria diferente?
Em algum momento a analogia inverteu. Chamamos o computador de “cérebro eletrônico” há tanto tempo que parece que começamos a achar que somos máquinas também.
O fim do barulho discado normalizou o que a gente achava mágico e trouxe outros problemas junto. Acabou com as dúvidas das mesas de bar (sou desses: geralmente tenho dúvidas nessa hora). Acabou com o ócio da espera. Fila do caixa da padaria, fila do elevador, esperar o Uber: qualquer segundo livre vira motivo para abrir o celular. Incluindo, e isso é a coisa mais absurda do fenômeno, dentro do cinema.
O cérebro não descansa nunca
Mas tem outro lance nesse hábito de preencher cada fresta com o celular: o cérebro não descansa nunca. E isso tem preços.
O primeiro: Gloria Mark, pesquisadora da UC Irvine e autora de “Attention Span”, documentou que a capacidade de manter a atenção caiu de dois minutos e meio, em 2004, para 47 segundos hoje.
O segundo é o ócio criativo. Sem ócio, a criatividade cai. Não precisa de estudo para isso: quando você está no banho, sem celular, sem nada, não é aí que você tem alguma ideia boa ou lembra de algo importante que estava esquecendo? Ou nas corridas longas, quando você some um pouco da realidade e resolve mentalmente metade das tretas do dia? É o cérebro fazendo conexões quando não tem mais nada para processar em tempo real.
O terceiro é a memória. Sabe quando você não lembra de onde viu um vídeo engraçado ou uma dica interessante? Excesso de informação combinado com atenção fragmentada. O vídeo poderia ter sido no YouTube, no Instagram, no TikTok, no WhatsApp. Você não lembra direito nem o que era. E não é culpa sua: ninguém consegue rastrear o que consome em um feed infinito. O fenômeno já é parte do zeitgeist. É assim mesmo.
Qualquer atividade que exija atenção sustentada e tenha começo, meio e fim reconhecíveis serve como treino para esse músculo. Pode ser desenhar, tocar um instrumento, cozinhar. Não um ovo mexido em três minutos: algo que exija entender como se faz, que peça paciência, que tenha ritmo próprio. Um pão, um brigadeiro, uma receita que você nunca tentou. Você aprende a respeitar o tempo de cada coisa.
Quando a internet discada voltava depois de cair, você percebia na hora o quanto dependia dela. Com a atenção é o mesmo. A diferença é que atenção não manda sinal de ocupado quando cai. Você só percebe que foi embora quando tenta usar e não consegue.
Este texto faz parte da base teórica do Método Traço/Feito.