DIÁRIO DE CAMPOAtenção

47 segundos

Mão jogando farinha sobre uma massa de pão, no meio do processo, com farinha espalhada pela bancada.

Lembra do barulho de se conectar na internet? Quando você deixou de ouvir esse barulho, quando a conexão se tornou tão indispensável quanto a energia elétrica (que você só nota que existe quando falta), foi o dia em que o seu tempo livre acabou.

Antes desse momento, existia “o momento de se conectar”. Com ele foi embora a separação. Passamos a misturar os canais: redes sociais viraram lazer, scroll infinito virou ócio, notificações intermináveis viraram prioridades mais urgentes do que os lembretes que você anota em papel. E o multitasking virou sinônimo de alta produtividade. Não é.

Rushkoff, em “Throwing Rocks at the Google Bus” e depois em “Team Human”, compara o modelo de crescimento perpétuo com algo que também não para de crescer: um tumor. A diferença é que o tumor mata o hospedeiro. Uma árvore para de crescer quando chega ao seu limite. Uma pessoa, também. Um pão fermentando tem uma tarefa e um tempo, e não é bom acelerar nem antecipar.

Já pensou num pão multitask?

Aquele que fermenta enquanto é assado? Não faz sentido. Por que a gente cisma em achar que, com o cérebro, seria diferente?

Em algum momento a analogia inverteu. Chamamos o computador de “cérebro eletrônico” há tanto tempo que parece que começamos a achar que somos máquinas também.

O fim do barulho discado normalizou o que a gente achava mágico e trouxe outros problemas junto. Acabou com as dúvidas das mesas de bar (sou desses: geralmente tenho dúvidas nessa hora). Acabou com o ócio da espera. Fila do caixa da padaria, fila do elevador, esperar o Uber: qualquer segundo livre vira motivo para abrir o celular. Incluindo, e isso é a coisa mais absurda do fenômeno, dentro do cinema.

O cérebro não descansa nunca

Mas tem outro lance nesse hábito de preencher cada fresta com o celular: o cérebro não descansa nunca. E isso tem preços.

O primeiro: Gloria Mark, pesquisadora da UC Irvine e autora de “Attention Span”, documentou que a capacidade de manter a atenção caiu de dois minutos e meio, em 2004, para 47 segundos hoje.

O segundo é o ócio criativo. Sem ócio, a criatividade cai. Não precisa de estudo para isso: quando você está no banho, sem celular, sem nada, não é aí que você tem alguma ideia boa ou lembra de algo importante que estava esquecendo? Ou nas corridas longas, quando você some um pouco da realidade e resolve mentalmente metade das tretas do dia? É o cérebro fazendo conexões quando não tem mais nada para processar em tempo real.

O terceiro é a memória. Sabe quando você não lembra de onde viu um vídeo engraçado ou uma dica interessante? Excesso de informação combinado com atenção fragmentada. O vídeo poderia ter sido no YouTube, no Instagram, no TikTok, no WhatsApp. Você não lembra direito nem o que era. E não é culpa sua: ninguém consegue rastrear o que consome em um feed infinito. O fenômeno já é parte do zeitgeist. É assim mesmo.

Qualquer atividade que exija atenção sustentada e tenha começo, meio e fim reconhecíveis serve como treino para esse músculo. Pode ser desenhar, tocar um instrumento, cozinhar. Não um ovo mexido em três minutos: algo que exija entender como se faz, que peça paciência, que tenha ritmo próprio. Um pão, um brigadeiro, uma receita que você nunca tentou. Você aprende a respeitar o tempo de cada coisa.

Quando a internet discada voltava depois de cair, você percebia na hora o quanto dependia dela. Com a atenção é o mesmo. A diferença é que atenção não manda sinal de ocupado quando cai. Você só percebe que foi embora quando tenta usar e não consegue.

Este texto faz parte da base teórica do Método Traço/Feito.