DIÁRIO DE CAMPOEvidência

A gente passou anos aprendendo que errar tira pontos

Ou como o erro virou a única coisa que a escola nunca ensinou a usar a favor.

Página de caderno com exercícios de matemática e correções a caneta vermelha, com um zero circulado no alto.

Pensa na primeira vez que você viu um erro seu corrigido em vermelho.

Você provavelmente não lembra da data, mas lembra da sensação. A caneta vermelha por cima da sua, o número no canto da folha, a comparação com a resposta certa que a professora já tinha em mãos antes de você começar. O recado era simples, e a gente entendeu bem rápido: errar tira ponto. Não tem nada de aproveitável ali. O erro é o que sobrou de uma tentativa que falhou.

A gente carregou isso por anos. E nunca desaprendeu.

Eu estudei, no que hoje chamam de ensino fundamental 1, numa escola que usava o método Piaget. Aquela questão de errar, o conceito de colar do colega para ter a resposta certa eram coisas totalmente estranhas para mim. Eu só conhecia isso dos filmes. Lembro de quando mudei de escola e tive o primeiro contato com as correções, as penalidades, as notas vermelhas e de como não gostava de nada daquilo. De alguma forma, não fazia sentido para mim.

Hoje eu vejo o resultado disso toda vez que um adulto pega uma ferramenta nova pela primeira vez. A hesitação antes do primeiro gesto, o jeito de segurar que parece pedir licença, a marca pequena e cautelosa no menor tamanho possível. A pessoa tem habilidade de sobra para um primeiro gesto. O que trava é outra coisa: ela já chega protegida contra o erro, do jeito que aprendeu lá atrás, quando errar só servia para baixar a média. Quando criança, isso não importava. O adulto sempre acha que tem que fazer direito e melhor, porque carrega a história de quem já deveria saber, comparando o tempo todo.

O erro que vira informação

Lino de Macedo (professor emérito da USP e um dos principais intérpretes brasileiros de Piaget) passou décadas estudando como as pessoas aprendem fazendo. Uma das coisas que ele mostra é que o erro muda de natureza dependendo do contexto. Quando o objetivo e o resultado são claros para quem age, o erro deixa de ser fracasso e vira, nas palavras dele, algo a ser alterado, corrigido ou aperfeiçoado.

São dois jeitos de olhar para a mesma marca na folha. Para a escola da caneta vermelha, o erro é um veredito sobre você, algo que entra na conta da sua nota. Para quem age com um objetivo claro na frente, como Macedo descreve, o mesmo erro é informação sobre o trabalho. O primeiro você quer esconder. O segundo, você se apropria dele e o usa.

E aqui está o ponto que demorei a enxergar: o erro não é o oposto do aprendizado; é onde ele começa. É o primeiro gesto pedagógico, o momento em que você fica sabendo onde está em relação ao que quer fazer. Tira o erro do processo e não sobra nenhum processo; sobra só a checagem de uma resposta que já existia antes de você.

A escola fez exatamente isso. Pegou o gesto inaugural do aprender e transformou em penalidade.

Na vida, dez. Na escola, zero.

Fiquei curioso e fui procurar algo a respeito e achei um estudo brasileiro de 1982 que me chamou muito a atenção. Terezinha Nunes, com David Carraher e Analúcia Schliemann, acompanhou crianças e adolescentes que vendiam em feiras no Recife. Na feira, fazendo conta de cabeça para dar troco e calcular preço, eles acertavam quase tudo. Os mesmos meninos, sentados com lápis e papel diante das mesmas operações na forma escolar, despencavam.

O título do artigo virou clássico justamente por nomear o absurdo: “Na vida, dez; na escola, zero”. É um estudo pequeno, mas o que ele aponta transcende o tamanho da amostra. O conhecimento construído na prática, com propósito e com as mãos, funcionava. A forma escolar, que media tudo contra a resposta única e certa, fazia o mesmo conhecimento desaparecer.

Os autores mostram que o fracasso ali era da escola, que não conseguia ligar o saber prático que a criança já tinha ao saber formal que queria transmitir. A feira deixava errar e corrigir no caminho. A prova, não. E o lugar que mais pune o erro foi, nesse caso, o lugar onde o aprendizado menos funcionou.

Quem decide o que está certo

Tem uma consequência disso que vai além da nota.

Quando cada gesto seu é medido contra uma resposta certa que está fora de você (na cabeça do professor, no gabarito, na régua de alguém), você nunca precisa decidir nada. Só precisa adivinhar o que esperam. O erro, nesse esquema, é perigoso porque denuncia que você decidiu por conta própria e decidiu diferente.

Paulo Freire chamou isso de educação bancária: o conhecimento é depositado, o aluno recebe e devolve intacto. Não se pede que ele autorize nada, que escolha, que assuma um caminho e responda por ele. E não é coincidência que o livro em que Freire foi mais fundo no assunto se chame Pedagogia da Autonomia. Autonomia é exatamente o que esse modelo não produz, porque autonomia exige o direito de errar. Sem margem para o erro, não há margem para a decisão. Você não está fazendo o seu trabalho, está tentando acertar o trabalho dos outros.

Anísio Teixeira, que trouxe o aprender fazendo para o Brasil e o materializou nas oficinas da Escola-Parque em Salvador, dizia que a escola deveria ajudar o aluno a fazer a sua própria educação. Fazer a sua. Não reproduzir a de alguém. Isso só existe num lugar onde o erro tem permissão de aparecer, porque é errando, corrigindo e decidindo de novo que a pessoa vira autora do que faz, em vez de candidata à aprovação.

O material também corrige, e não tira ponto

Fayga Ostrower, que pensou a criatividade como trabalho com a matéria, tinha uma formulação que ajuda a fechar isso. As restrições do material, dizia ela, são também orientações, não só limites. A massa que empurra de volta, a letra que sai diferente do que você planejou, a foto que não expõe como você esperava: essa resistência é o que orienta o próximo gesto.

É um erro, no sentido literal. Algo saiu diferente do pretendido. Mas o material não dá nota. Ele só informa. E quem está fazendo lê essa informação e decide o que fazer com ela, sem ninguém por perto segurando o gabarito. É a versão adulta e manual da feira do Recife e é o oposto exato da caneta vermelha.

Keri Smith, que propõe atividades manuais em que o erro é declarado como objetivo desde o início, mostra o que acontece quando você tira a defesa de propósito: a pessoa faz algo que não sabia que era capaz de fazer. Não porque ganhou habilidade de repente, mas porque parou de se proteger de uma punição que ali não existe mais.

Eu já escrevi sobre isso antes, mas os momentos em que mais aprendi foram errando. Seja lançando o moovee.me, o Brainstormr, o Puf! app ou em campanhas para clientes ao longo da carreira. Os erros eram muito mais ricos do que os acertos que iam para o mundo mágico dos videocases.

O que fica

Volto para o adulto que hesita na frente da folha em branco. Ele não está com medo de não saber. Está com medo de errar, e esse medo tem doze anos de treino, no mínimo. A gente aprendeu cedo que o erro é o fim da linha, a prova de que falhou, a coisa a esconder. Ninguém nos ensinou que ele é, antes disso, o começo: o primeiro lugar onde o aprendizado encosta a mão.

Recuperar a capacidade de fazer coisas, de sustentar atenção, de criar em vez de só consumir, passa menos por aprender uma técnica nova do que por desfazer essa associação antiga. Por devolver ao erro o lugar que ele tinha antes de virar número vermelho no canto da folha.

Eu ando testando isso na prática, fora da sala de aula, com gente adulta e atividades feitas com as mãos. Logo, logo eu conto mais sobre essa experiência.

Este texto faz parte da base teórica do Método Traço/Feito.