DIÁRIO DE CAMPOAtenção

Multitask é o ultraprocessado do cérebro

Ou por que duas das maiores mentiras sobre saúde e produtividade têm exatamente a mesma estrutura.

Prateleira de supermercado lotada de pacotes de salgadinho, de cima a baixo.

Tem uma categoria específica dentro da comida industrializada que o mercado de alimentos chama de ultraprocessado. São produtos formulados para serem hiper-palatáveis, convenientes e baratos de produzir em massa. O refrigerante mata a sede. O biscoito recheado satisfaz. Os dois enganam não porque são de baixa qualidade, mas porque foram projetados para dar a sensação de que entregam o que o organismo precisa sem de fato entregar.

A gente come todos os dias e não consegue atribuir o dano a uma refeição específica. O padrão aparece em retrospecto e o efeito se acumula.

Quando me veio a frase “multitask é o ultraprocessado do cérebro”, a analogia pareceu fazer sentido.

A palavra multitasking surgiu no vocabulário de TI nos anos 1960 para descrever um computador processando múltiplas tarefas em paralelo. Os humanos importaram o termo algumas décadas depois, junto com a promessa implícita de que era possível fazer o mesmo no nosso cérebro.

Não é. O cérebro humano não processa tarefas cognitivas em paralelo. O que acontece tem um nome técnico: task-switching. Troca rápida de foco entre tarefas, com custo de reorientação a cada troca. Existe até um fenômeno chamado attention residue: quando você troca de tarefa, parte do processamento mental ainda está na tarefa anterior. Você começa a nova já com capacidade reduzida.

Gloria Mark, pesquisadora da UC Irvine, passou anos medindo isso. O número documentado na sua pesquisa, consolidado em “Attention Span” (2023):

Depois de uma interrupção, a pessoa leva em média 25 minutos e 26 segundos para retomar a tarefa original, passando por duas tarefas intermediárias no caminho. E a maioria das pessoas se interrompe, voluntariamente ou não, muito mais de uma vez por hora.

Multiplique.

Ultraprocessado e multitasking têm a mesma arquitetura de sedução.

Os dois parecem eficientes. O snack é rápido, não exige preparo, cabe em qualquer agenda. O multitasking parece produtividade em ação: você está fazendo três coisas ao mesmo tempo, claramente ocupado, claramente entregando.

Os dois dão feedback imediato positivo que mascara o custo real. O ultraprocessado acerta os receptores de sabor. O multitasking acerta o receptor de urgência: você respondeu o e-mail, avançou na planilha, atendeu a ligação. Parece vitória. A sensação é real, mas o custo também.

A normalização cultural faz o resto. Quem come comida de verdade no almoço parece estar perdendo tempo. Quem faz uma coisa de cada vez parece estar trabalhando devagar. Em ambos os casos, a alternativa virou o desvio.

E o dano é cumulativo o suficiente para que a conexão com a causa fique nebulosa. Ninguém consegue atribuir a exaustão cognitiva a uma tarde específica de reuniões sobrepostas. O dano é o padrão, não o episódio.

Uma pesquisa de Clifford Nass e colegas na Universidade de Stanford (2009) descobriu o seguinte: pessoas que se identificam como boas em multitasking são sistematicamente piores em filtrar informações irrelevantes, manter o foco e alternar entre tarefas do que pessoas que fazem isso raramente. O resultado que mais me incomoda nessa história é esse: a prática regular de task-switching piora a capacidade cognitiva de executá-lo. Não melhora.

Esse ponto vale ser dito com cuidado, porque a fragmentação da atenção não resulta só de escolhas individuais. Gloria Mark documentou que a maioria das interrupções vem de fora, com origem estrutural: o ambiente de trabalho, a cultura de resposta imediata e a arquitetura das ferramentas de comunicação também contribuem para que a fragmentação seja o estado padrão. Da mesma forma, o ultraprocessado domina o mercado por ser o produto mais disponível, mais barato e mais conveniente em boa parte dos contextos urbanos, o que relativiza bastante a ideia de escolha livre. Tratar isso como problema de hábito e autodisciplina resolve uma metade do diagnóstico e ignora a outra.

O ultraprocessado cria algo parecido com dependência: treina o organismo para preferir estímulo fácil e intenso, o que torna alimentos nutricionalmente mais densos progressivamente menos palatáveis. O mecanismo tem nome: variable reward schedule. O sistema de recompensa do cérebro não aprende a antecipar o estímulo em si, mas a incerteza de se ele vai chegar. Essa imprevisibilidade é suficiente para manter o ciclo funcionando.

É o mesmo princípio das máquinas caça-níqueis e opera com a mesma lógica nas notificações: o cérebro não sabe se a próxima vai ser relevante, mas verifica assim mesmo. O multitasking se alimenta desse ciclo. Cada troca de tarefa carrega uma microantecipação do que pode ter chegado enquanto a atenção estava em outro lugar, o que torna a atenção sustentada progressivamente mais difícil de tolerar.

E, mesmo assim, virou uma habilidade de currículo. “Trabalho bem sob pressão e sou excelente no multitasking.” Com orgulho.

O que corrói a capacidade cognitiva não é a interrupção pontual. É a fragmentação como modo de operação padrão. Ultraprocessado em proporção baixa na dieta é irrelevante. O padrão muda quando vira a base. Com task-switching, a lógica é a mesma.

A atenção sustentada é uma capacidade como qualquer outra. Exercitada, funciona. Substituída sistematicamente por task-switching, atrofia. E, como qualquer capacidade que atrofiou, a recuperação tem um ritmo, não um momento.

Quando foi a última vez que você fez uma coisa só, do começo ao fim, sem parar no meio?

Este texto faz parte da base teórica do Método Traço/Feito.