Curiosidades sobre os dados de uma pesquisa Ipsos/Nubank sobre tempo de tarefas e atividades de brasileiros.
O Brasil é o segundo país do mundo em tempo diário de uso de internet: 9 horas e 9 minutos por dia, segundo o DataReportal de 2025. Estamos 2 horas e meia acima da média global, bem acima dos EUA, muito acima do Japão. Num dia normal, passamos acordados cerca de 16 horas. Mais da metade, em média, envolve alguma tela.
E a televisão continua lá firme e forte. O brasileiro médio passa mais de 17 horas por semana diante da TV, somando canal aberto e streaming, mais do que com qualquer outro meio. Só que a TV deixou de ser o foco: ela virou o fundo. A trilha sonora enquanto a atenção está no smartphone, no scroll do Instagram, no WhatsApp que ficará sem resposta até amanhã. É a tal da segunda tela, só que invertida: antes era o Twitter no celular enquanto a TV mandava. Agora a segunda tela é a TV. O resultado são dois fluxos de conteúdo disputando o mesmo cérebro ao mesmo tempo.
Essa combinação de TV, smartphone, streaming e redes sociais é mais uma substituição do que uma adição. O tempo que foi para as telas saiu de algum lugar: das conversas, do ócio não-estimulado, do silêncio, do fazer com as mãos, das amizades que exigem presença para existir.
Dá para ver esse deslocamento na própria distribuição do tempo. Segundo o Digital 2026, da DataReportal, entre os usuários de internet no Brasil o vídeo online ocupa 17 horas por semana e as redes sociais, outras 12. A mídia impressa (jornal ou revista em papel) fica com 2 horas e 38 minutos. É a única da lista com materialidade, leitura sem notificação e ritmo próprio. E é a categoria com menos tempo, quase cinco vezes menos que as redes sociais.
Uma pesquisa da Ipsos para o Nubank, de julho de 2024, com 1.500 brasileiros perguntou: se você tivesse mais tempo livre, o que faria com ele?
As respostas foram previsíveis. Viajar (42%). Dormir (36%). Assistir mais TV, filmes e séries (27%). Se exercitar (26%). Descanso e ócio (23%).
Acho que a maioria de nós falaria algo parecido. Em outra ordem, talvez. Zero novidades.
Mas acontece que a pesquisa tinha mais dados que contavam uma outra história.
Quando os pesquisadores cruzaram o uso do tempo com satisfação declarada, encontraram um padrão que não combina com o top 5 acima. Brasileiros que estão muito satisfeitos com seu tempo livre praticam 34% mais atividades artísticas do que a média. 41% mais culinária. 65% mais atividades ao ar livre.
Já entre os menos satisfeitos, o movimento é o contrário: vão 57% menos a shows, teatros, exposições e cinema. Fazem 39% menos atividade física. Praticam 15% menos culinária.
Ninguém apareceu na pesquisa dizendo “o que falta na minha vida é uma tarde aprendendo a assar pão”. Mas os que estão satisfeitos com seu tempo livre estão fazendo isso (ou algo parecido) e com uma frequência bem maior que a média.
A pesquisa calculou também a escala de vida. O brasileiro adulto tem, em média, 15 anos de tempo livre ao longo de toda a vida (dos 18 aos 76 anos). Desses 15 anos, 7 vão para telas. Atividades artísticas ficam com 1,3 ano. Culinária, com pouco mais de 1 ano.
(Só para você comparar: o deslocamento entre casa e trabalho consome 3 anos de vida adulta. Três anos no trânsito.)
É que passar 7 anos em telas acaba sendo a escolha fácil, de resposta rápida. É o que as pessoas fazem com o tempo que sobra depois do trabalho, do sono e das obrigações. Esse padrão faz sentido se a gente considerar o ambiente: a opção mais disponível é também a mais projetada para capturar atenção.
E tem um ponto importante aqui também: essa correlação entre satisfação e atividades presenciais pode ser o inverso do que parece. Quem tem mais tempo livre já está menos sobrecarregado, então tem espaço para cozinhar, fazer arte, sair. A pesquisa não prova que essas atividades causam satisfação, só documenta que as duas coisas andam juntas.
O que está documentado é esse gap. As pessoas aspiram a TV e sono, mas quem está satisfeito está fazendo outra coisa. A distância entre o que a gente diz querer e o que nos faz bem é real. E fácil de ignorar.
Mas é aquela história: a atenção fragmentada vai estreitando o horizonte do que a gente consegue desejar. Quem nunca terminou um dia com algo que fez com as próprias mãos pode nem saber o que está perdendo. Então a pergunta muda um pouco.
Quando foi a última vez que você fez algo difícil o suficiente para valer a pena lembrar?
Este texto faz parte da base teórica do Método Traço/Feito.
