Sobre herança de hábito e o ponto de referência que desliza
Imagine duas casas, e me deixa exagerar de propósito. Na primeira, a criança cresce vendo os pais ler. Livro no sofá, livro na cama, livro no café da manhã de domingo. Do outro lado da rua, a criança cresce vendo os pais no feed. Tela no sofá, tela na cama, tela no café da manhã de domingo. Nenhuma das duas crianças escolheu nada, e nenhum dos pais está fazendo algo errado. As duas só absorveram o clima da casa onde nasceram, e vão chamar esse clima de normal pelo resto da vida.
O que cada geração encontra quando chega, ela chama de normal.
Douglas Adams escreveu a versão mais engraçada disso. Para ele, tudo que já existe no mundo quando a gente nasce é apenas parte natural de como as coisas funcionam. Tudo que é inventado entre os nossos 15 e 35 anos é novo, empolgante e revolucionário. E tudo que aparece depois dos 35 vai contra a ordem natural das coisas. A régua do que é normal não é fixa. Ela é a idade que você tinha quando reparou.
Em 1995, o biólogo Daniel Pauly deu nome científico a esse mecanismo estudando pesca. Ele reparou que cada geração de cientistas aceitava como estoque normal de peixe aquilo que encontrou no início da carreira, mesmo quando esse estoque já estava muito mais vazio que o da geração anterior. O ponto de referência desliza junto com a degradação (o termo técnico dele é baseline, mas ponto de referência dá conta). Como ninguém guarda memória do oceano cheio, ninguém sente falta dele. Pauly chamou isso de shifting baseline syndrome. Soga e Gaston, mais tarde, deram um nome mais direto: amnésia geracional.
O conceito nasceu na ecologia, e é lá que ele tem prova. Não há estudo aplicando esse mecanismo a atenção ou a uso de tela, então trato aqui como empréstimo, não como ciência fechada. Mas existe uma ponte mais firme que a metáfora do peixe. Hanazaki e colegas revisaram 84 estudos sobre conhecimento tradicional de plantas e acharam o mesmo padrão: gerações mais novas sabem menos sobre o uso prático das coisas, e a perda passa despercebida porque o saber some antes de virar falta. Aqui o objeto do estudo já é o que interessa, saber fazer com as mãos.
É esse o ponto que costuma escapar quando se fala em tempo de tela. O brasileiro passa mais de nove horas por dia online, e Gloria Mark, da UC Irvine, mediu a atenção sustentada caindo de dois minutos e meio para 47 segundos em vinte anos. O número impressiona, mas a parte difícil é outra: quem nunca completou um ciclo inteiro de atenção com as próprias mãos não tem ponto de referência para comparar. A pessoa não sente falta de um oceano que nunca viu.
E é aqui que o mecanismo tem uma saída que a pesca não tinha. O ponto de referência não some para sempre, ele fica fora de alcance. E fora de alcance é uma coisa que se resolve mostrando. Fazer um pão do começo ao fim, escrever dez páginas até a mão entender o espaço da letra, revelar uma foto que foi decidida na hora da captura, essas experiências mostram, pela primeira vez para muita gente, qual era o ponto de referência. O oceano cheio deixa de ser abstração e vira uma tarde concreta. Você não estava sentindo falta porque não sabia do que sentir falta. Depois de uma tarde dessas, passa a saber.
Talvez seja por isso que a conversa sobre “usar menos o celular” quase sempre trava. Ela pede que a pessoa sinta falta de uma coisa que a memória dela não registra. É mais fácil mostrar o ponto de referência uma vez do que descrever o que ela deveria estar perdendo.
E aí volta a criança do começo. O clima que os pais criam em casa é o ponto de referência que os filhos herdam sem reparar. Ler na frente deles deixa a régua num lugar. Fazer algo com as mãos, na frente deles, deixa em outro. Nenhum dos dois precisa de sermão. Basta acontecer, todo domingo, como o clima.
(Qual foi o último ponto de referência que você passou adiante sem reparar?)
Este texto faz parte da base teórica do Método Traço/Feito.